O lançamento da ia.i evidencia como branding, inovação e experiência podem construir posicionamento quando avançam na mesma direção.
Em um mercado no qual praticamente todas as empresas afirmam usar inteligência artificial, o desafio deixou de ser apenas anunciar a tecnologia. Agora, é preciso transformar inovação em algo compreensível, relevante e percebido pelo cliente.
O Itaú encontrou uma maneira estratégica de fazer isso: transformou o próprio logotipo em mensagem.
Temporariamente, algumas fachadas do banco em São Paulo e no Rio de Janeiro, além dos seus canais digitais, passaram a exibir apenas duas letras: “ia”. Ao retirar o “t” e o “ú” de Itaú, o banco revelou a inteligência artificial dentro do próprio nome.
A intervenção fez parte da campanha de lançamento da ia.i, a nova experiência de inteligência artificial generativa integrada ao Superapp Itaú.
É importante esclarecer: não se trata de um rebranding definitivo, mas de uma ação temporária criada para gerar curiosidade, estimular conversas e preparar o mercado para a apresentação da nova tecnologia.
Quando a marca deixa de ilustrar e passa a comunicar
O ponto mais interessante desse movimento não está apenas na mudança visual. O Itaú não criou um símbolo completamente novo para falar de inteligência artificial. Utilizou um ativo que já possuía: o próprio nome.
A marca deixou de ser somente a assinatura da campanha e passou a fazer parte da ideia.
Essa escolha reduziu a distância entre comunicação e produto. Em vez de simplesmente afirmar que o banco possui inteligência artificial, a campanha fez a IA ocupar visualmente o espaço da marca.
O resultado foi uma mensagem simples, direta e capaz de gerar reconhecimento mesmo antes da explicação completa.
Metade do nome. Reconhecimento inteiro.
Existe outro elemento estratégico nessa ação: mesmo com apenas duas letras, a associação com o Itaú continuou acontecendo.
As cores, o contraste, o formato, a tipografia e o contexto das fachadas foram suficientes para preservar o reconhecimento. Isso demonstra a força dos ativos distintivos construídos pela marca ao longo dos anos.
Uma empresa menos conhecida provavelmente geraria confusão ao retirar metade do próprio nome. O Itaú conseguiu fazer isso porque acumulou reconhecimento por meio da repetição consistente de seus elementos visuais.
Marcas fortes conquistam uma liberdade que marcas pouco estruturadas ainda não possuem: elas podem simplificar sem desaparecer.
Entretanto, essa liberdade não nasce de uma campanha isolada. É resultado de anos de consistência, investimento, presença e gestão estratégica da identidade.
A campanha possui um produto por trás
Toda ação baseada em inovação corre o risco de se transformar em espetáculo tecnológico sem aplicação prática. Nesse caso, a comunicação está vinculada ao lançamento de uma experiência real.
A ia.i foi desenvolvida para permitir que clientes interajam com o banco por meio de linguagem natural, utilizando texto ou voz. A ferramenta pode responder dúvidas, oferecer orientações contextualizadas, ajudar na organização financeira e conduzir o usuário para serviços e operações, incluindo jornadas como o Pix.
A experiência começou sendo disponibilizada para aproximadamente 300 mil clientes. A previsão anunciada pelo banco é chegar a 3 milhões de usuários até setembro e alcançar todos os clientes pessoa física do Superapp até o final de 2026.
Portanto, o Itaú não está apenas usando inteligência artificial em processos internos. A tecnologia passa a ocupar uma camada visível do relacionamento com o cliente.
O verdadeiro movimento de mercado
O lançamento aponta para uma mudança maior no setor financeiro. Durante os últimos anos, os bancos disputaram espaço por meio da qualidade dos aplicativos, da quantidade de funcionalidades e da redução das etapas necessárias para realizar uma operação.
Com a inteligência artificial generativa, essa disputa começa a avançar para outro nível. O cliente poderá deixar de procurar funcionalidades em menus para simplesmente explicar o que precisa. A tecnologia deverá interpretar a intenção, considerar o contexto e indicar ou executar o caminho mais adequado.
A inteligência artificial deixa, assim, de ser apenas uma ferramenta de bastidor e passa a funcionar como uma interface de relacionamento.
Nesse novo cenário, a competição entre as instituições financeiras tende a envolver não apenas quem possui mais funcionalidades, mas quem consegue compreender melhor o cliente, simplificar decisões e construir confiança.
Comunicação forte não substitui experiência
A campanha do Itaú é eficiente ao criar significado para o lançamento. No entanto, o posicionamento prometido somente será consolidado se a experiência validar a comunicação.
Os clientes precisarão perceber segurança, precisão, facilidade e relevância nas interações com a ia.i.
Esse é um ponto importante para qualquer negócio: a comunicação pode despertar atenção e gerar expectativa, mas é a experiência que confirma ou enfraquece o posicionamento.
Uma marca não se fortalece apenas pelo que anuncia. Ela se fortalece pela coerência entre o que promete, o que entrega e o que o público percebe.
Quatro aprendizados para as empresas
O movimento do Itaú oferece algumas lições que podem ser aplicadas a negócios de diferentes portes:
1. A identidade visual é um ativo estratégico
Ela não deve funcionar apenas como elemento decorativo. Quando bem construída, pode traduzir movimentos do negócio e tornar ideias complexas mais compreensíveis.
2. Consistência gera liberdade criativa
Quanto mais reconhecíveis são os ativos de uma marca, maior é a possibilidade de reinterpretá-los sem perder sua identidade.
3. Inovação precisa ultrapassar o discurso
Uma tecnologia só contribui para o posicionamento quando melhora o produto, o processo ou a experiência do cliente.
4. Comunicação e entrega precisam contar a mesma história
Campanhas podem gerar visibilidade, mas a percepção de valor nasce da coerência entre estratégia, comunicação e experiência.
A marca precisa mostrar para onde o negócio está indo
O caso do Itaú demonstra que branding não se limita à criação de um logotipo. Branding também é a capacidade de transformar estratégia empresarial em percepção.
Ao retirar duas letras do próprio nome, o Itaú não comunicou apenas a chegada de uma nova ferramenta. Sinalizou a direção que pretende seguir na relação entre tecnologia, serviços financeiros e experiência do cliente.
Na Skepping, entendemos que marcas fortes precisam comunicar tanto o que a empresa representa hoje quanto o futuro que está construindo.
Por isso, a pergunta que fica para líderes e empreendedores é: A sua marca comunica apenas o que a empresa faz atualmente ou também deixa claro para onde o negócio está indo?
Fontes consultadas: Itaú lançamento da ia.i no Superapp e Clube de Criação intervenção temporária nas fachadas.
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